Deixando Agra por comboio, chegámos (eu e o meu filho João) a Varanasi, depois de algumas horas, num compartimento minimamente confortável, ansiosos por visitar umas das cidades mais icónicas dos roteiros dos viajantes e amantes de viagens.

Varanasi é mais conhecida pela Cidade dos Mortos. Considerada a capital espiritual da Índia, a cidade atrai peregrinos hindus, que se banham nas águas sagradas do rio Ganges (altamente poluídas) e onde se realizam rituais funerários. 

A impressão com que ficámos da cidade, foi de caos, confusa, sobrelotada e suja. Para não se falar do pó, (felizmente que me lembrei levar máscaras, das que usamos agora, por causa do Covid),  a cidade é ainda muito barulhenta, com um constante buzinar, que substituí os pisca-pisca, para assinalar a direção, de outra forma não era possível circular nas ruas caóticas de Varanasi com milhares de motos, rick-shaws, tuk-tuks, vacas, porcos e outros animais, por todo o lado.

Circular nas ruas estreitas e sinuosas, adjacentes à zona próxima das escadarias, onde é permitido apenas o tráfego de motorizadas, é algo de surreal, pelo permanente circular de pessoas, mercadorias, vacas e defuntos, para não falar dos cheiros e dos aromas.

Os familiares transportam em ombros o defunto devidamente ornamentado, ladeados de ambos os lados, em passo apressado e cantando “Deus é a Verdade”, que têm como destino, o último banho sagrado, para purificação e posterior cremação.

Nesta zona, dentro das águas do rio, é visível várias pessoas, como se de garimpeiros se tratasse, na procura incessante de materiais preciosos, perdidos nos últimos banhos dos defuntos.

Quando se fala em Ganges (rio), Varanasi tem as escadarias mais simbólicas, por darem acesso aos banhos religiosos. Neste local ocorrem diariamente cremações a céu aberto. Embora exista um crematório comunitário, aparentemente mais organizado, onde é observável vários compartimentos com cremações em curso, onde são cremados corpos em série. Vinte quatro horas sobre vinte e quatro horas, sete dias por semana e durante todo o ano sem qualquer paragem

As cremações são atos sociais, que se distinguem pelo estatuto que o defunto, enquanto vivo ocupava na sociedade, os mais abastados são cremados com madeira de Sândalo, os menos afortunados, com madeiras menos nobres.

Nem todas as pessoas podem ser cremadas. No Manikarnika ghat, são cremados os defuntos de causas naturais. Na ghat Harishchandra, os suicidas e vítimas de acidentes, independente da sua natureza.

Os Sahdus (devotos hindus que renunciaram à vida mundana), crianças e bebés não são cremados, já que são considerados seres puros, a morte por si só garante-lhes a passagem ao Moksha (significa libertação, liberação ou liberdade e, na filosofia hindu é considerado o mais alto ponto, o mais elevado da consciência). Desde modo, entende-se que não necessitam de passar pelo fogo purificador do Deus do Fogo (Agni).

As mulheres grávidas, leprosos e vítimas de mordeduras de cobras estão no mesmo nível. As grávidas, deve-se ao facto carregarem um ser inocente, os mordidos por cobras, por terem sido mortos por um animal sagrado e os leprosos por carregarem as marcas dos deuses.

Resumindo, não se trata apenas de cremar pessoas, é um ato carregado de simbolismo, de libertação e purificação transcendental e metafísica.

Os hindus devotos, têm com princípio percorrer a Panchkoshi (rota de peregrinação Hindu desde o século XIII), visitar a cidade e se possível finalizar a sua etapa nesta vida. Uma pequena nota, visitar Varanasi em setembro não é aconselhável, derivado às monções o rio sobre cerca de 20 metros, fazendo submergir toda a escadaria. Foi de facto uma desilusão não poder ver todo o esplendor e toda atividade humana que fervilha nesta margem do Ganges.

Aconselha-se, portanto, visitar a cidade em novembro ou dezembro, nesta altura o rio tem um caudal mais baixo e é navegável. Do ponto de vista cultural, nestes períodos ocorrem inúmeros festivais religiosos, como a grande noite do Deus Shiva e o festival Ganga, dedicado à Deusa do rio Ganges.

Toda a Índia é incrível. Varanasi é talvez do mais incrível que possa existir na Índia.

Rui Carvalho

Please follow and like us: